O Bitcoin e seus nós

Desde o fim do ano passado, decidi rodar meu próprio “nó” de bitcoin.

O que isso quer dizer?

A melhor forma de explicar o que é um nó de bitcoin é compará-lo não ao sistema financeiro, mas sim com o sistema cartorial.

Um nó é como um cartório muito simples, pois só guarda o registro de transações de um único tipo de “bem”, unidades e frações de unidades de bitcoin (chamados de UTXOs no protocolo).

No registro físico de um imóvel, chamado no direito brasileiro de matrícula, encontramos blocos de transação, que nada mais são do que a memória do que aconteceu com aquele imóvel, por exemplo, quem vendeu para quem e por quanto.

Qualquer pessoa que já tenha vendido ou comprado no um imóvel no Brasil sabe do que eu estou falando. Para se certificar que a transação foi de fato realizada, você precisa ir até o cartório e pedir uma cópia da matrícula.

Só com a cópia da matrícula você pode saber história daquele imóvel e verificar se o que foi feito contratualmente foi registrado na matrícula do imóvel. Caso contrário, a transação simplesmente não ocorreu.

Um nó do bitcoin funciona da mesma maneira. Ele mantém uma cópia de todos os blocos que armazenam as transações do bitcoin, sendo que cada bloco pode armazenar centenas de transações.

A cada 10 minutos aproximadamente, um bloco novo é criado, contendo novas transações de bitcoin. Se eu rodo meu próprio nó no meu computador, ele vai automaticamente checando com outros nós se as informações criadas pelos novos blocos são as mesmas, se elas “batem”.

A importância disso é verificar se aquela unidade de bitcoin é única e não foi transacionada duas vezes e se aqueles endereços são endereços aceitos na rede.

Um nó verifica, em resumo, se as transações que compõem aquele bloco são válidas.

Duas coisas, porém, são radicalmente novas no bitcoin se o compararmos com o sistema cartorial de registro de imóveis.

A primeira é que qualquer pessoa pode “rodar” uma cópia deste nó em seu próprio computador.

Os sistemas de registro estatais que conhecemos são centralizados e estão limitados às suas respectivas jurisdições. Se os arquivos de um cartório são destruídos ou se o regime de propriedade daquela jurisdição muda, por exemplo, pelo confisco estatal, não é mais possível saber quem é proprietário de qual imóvel.

Os nós do bitcoin não conhecem limites. Eles estão distribuídos global e gratuitamente, basta você fazer o download do software.

Quanto mais nós contendo esta cópia, mais descentralizada a rede do bitcoin se torna. Inclusive neste site dá para ver onde eles estão os nós nos diferentes países do globo: https://bitnodes.earn.com/

É como se houvesse centenas de milhares de cópias do mesmo cartório com o mesmo registo em todo o mundo. Para você ser um cidadão do bitcoin de primeira classe, você deve ter seu próprio cartório e não confiar no cartório alheio, nas “cópias” que alguém por ventura lhe mostrar.

Não é à toa que um dos lemas da comunidade bitcoin é: “não confie, verifique”.

A segunda novidade do bitcoin foi ter separado duas funções importantes. Uma função é essa que eu acabei de descrever: manter o nó rodando, ou seja, manter a existência das cópias dos blocos de transações; a outra função é ser o tabelião deste mini-cartório, que tem com tarefa registrar novas transações.

Esta última atividade, a de ser o tabelião do bitcoin, é chamada de “mineração”, e é feita por um sistema de verificação e remuneração chamado de Proof-of-Work (PoW).

É ao minerador, ou seja, ao tabelião, a quem compete criar agrupar todas as transações dentro do um bloco novo dele antes de ser enviado para os nós guardarem em seus registros.

Agora vocês podem se perguntar: Por que ter uma cópia rigorosamente igual de todas as transações em vários lugares do mundo?

Uma cópia tão igual a ponto de ninguém conseguir distinguir a cópia da versão original? Não é isso incrivelmente ineficiente? Eu não poderia simplesmente ter uma única cópia e confiar nela, tudo em um único servidor ou lugar?

Aqui vem o pulo do gato. É a distribuição global dos nós faz com que com que o bitcoin seja máquina da verdade em um mundo da pós-verdade. Sua extrema descentralização que faz com que eu não precise confiar em ninguém para acessar sua verdade.

O bitcoin é o mais próximo que o ser humano conseguiu produzir de uma verdade universal. Outras verdades universais, como as leis dá física ou as leis da matemática, foram descobertas pela humanidade. Só o bitcoin foi criado.

Como a língua portuguesa ou inglesa, ele é uma criação humana não corpórea, sua existência nos é transmitida pelos bits de informação compartilhados mundialmente.

E isso nos faz voltar ao problema da confiança e da verdade.

Não confiamos em ninguém para acessar a verdade. Não confiamos na mídia, no governo, nos bancos, nem nos nossos amigos que estão presos a bolhas das redes sociais.

A consequência disso é que é cada vez mais difícil e caro checar se informação que chega até nós é verdadeira ou não.

Mas mesmo assim precisamos ter uma vida prática.

Precisamos da verdade para sobrevivermos e precisamos de um lugar confiável para guardar e transacionar a riqueza produzida.

O piloto de um avião precisa confiar na torre de controle para lhe passar as informações verdadeiras sobre se é o momento certo de pousar a aeronave. Precisamos pagar o açougue um certo valor e ele precisa receber o mesmo valor, com o dinheiro saindo a minha conta e indo para a conta dele. Precisamos vender e comprar imóveis e precisamos saber se o vendedor é verdadeiramente o proprietário daquele imóvel ou se ele está vendendo o imóvel de alguém.

O fato de os governos e empresas abusarem de nossa confiança neles, aliado ao fato de sermos massacrados com milhares de informações contraditórias de diferentes fontes todos os dias, fizeram com que seja difícil e geralmente muito caro saber que algo realmente ocorreu no mundo.

A riqueza gerada por um povo ou por um indivíduo precisa de um lugar e de uma forma para ser armazenada. Essa riqueza também precisa ser armazenada em um registro que não seja corrompido ou inflacionado. A estrutura jurídica e política de diferentes jurisdições historicamente foi responsável por dizer quem é dono do quê e como.

Foram estas estruturas estatais quem sempre disseram a verdade sobre nossa riqueza. O abuso deste poder político e jurídico criou as moedas fiduciárias inflacionárias e crises econômicas severas, tornando a verdade do Bitcoin necessária.

A verdade que o Bitcoin produz é uma verdade simples, mas é sólida e prescinde do Estado. Uma transação de bitcoin foi realizada pois consta no nó de sua rede, nada no mundo pode alterar este fato e há milhares outros mini-cartórios distribuídos globalmente para provar isto para resto da eternidade.

Se alguém me entrega uma barra de um metal dourado e brilhante na mão e me diz: você agora está segurando 1kg de ouro maciço. Para verificar se esta barra é de fato composta por um 1kg de ouro maciço eu preciso ter muito conhecimento de química e de equipamentos especializados ou confiar em alguma empresa ou pessoa especialista em metais preciosos. Isso custa muito caro.

No caso do Bitcoin, se eu verifico no nó que uma unidade de bitcoin foi transferida para meu endereço, eu terei certeza de que ele está lá, de que é um bitcoin legítimo e eu não preciso confiar em ninguém para ter certeza disso. Também tenho certeza que não foram criados mais unidades de bitcoins além daquelas já autorizadas pelo protocolo.

Não preciso ligar para o gerente de nenhum banco. Não preciso consultar nenhum advogado. Não preciso tirar uma certidão na Receita Federal. Não preciso ir a nenhum cartório.

É uma informação confiável e o custo de checar essa verdade é baixíssimo. Além disso, se eu quiser transferir esta unidade para qualquer lugar do planeta, não preciso pedir permissão para ninguém e quem o receber poderá verificar com a mesma facilidade e grau de confiabilidade.

Em resumo: a consequência da falta de confiança é encarecer o valor da verdade enquanto custo de transação.

Bitcoin fixes this.